Composição de 1933

Mas, quem te deu tudo isso?

Letra

Antigamente tu moravas num cortiço
Pra pagar o prestamista fazias um rebuliço
Hoje, tu tens palacete e avião
Mas quem te deu tudo isso?Mas, diga aqui entre nós
Quem foi que te deu tudo isso?
Tu só comias farinha com chouriço
Não tinhas um dente postiçoTu não tens nada com isso!
Já tens uma dentadura
Toda de ouro maciço
Mas, quem te deu tudo isso?

História da Canção

A letra de 'Mas, Quem Te Deu Tudo Isso?', mesmo não sendo uma das composições mais difundidas ou registradas oficialmente na discografia canônica de Noel Rosa, carrega em si a inconfundível marca do Poeta da Vila. Nela, Noel, com sua habitual perspicácia e mordacidade, traça um retrato crítico da ascensão social e da ostentação no Rio de Janeiro da primeira metade do século XX.

Ambientada em um período de intensas transformações urbanas e sociais, a canção aborda a figura de alguém que, outrora morador de um “cortiço” e dependente de “prestamistas” para pagar suas dívidas, ascende a um status de luxo, possuindo “palacete e avião” e até uma “dentadura toda de ouro maciço”. A repetição incisiva da pergunta “Mas, quem te deu tudo isso?” é o cerne da crítica, insinuando que a fortuna pode ter origens duvidosas ou, no mínimo, que a pessoa esqueceu suas raízes humildes.

Noel Rosa era um mestre em observar e satirizar as nuances do cotidiano carioca. Esta letra espelha sua preocupação com a autenticidade e sua crítica àqueles que renegavam sua história e simplicidade em nome do status. A menção à “farinha com chouriço” e ao “dente postiço” antes, em contraste com a opulência atual, é um exemplo vívido de sua capacidade de usar detalhes pitorescos para construir personagens e tecer comentários sociais profundos. É uma canção que, em sua essência, reforça a imagem de Noel como um cronista genial e irônico da sociedade de sua época.

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